14/09/2008

Tecer Arquitectura

Em contraponto à "arquitectura uterina", que escava a natureza, desenvolvendo formas através da subtracção de elementos, temos outro tipo de construção, assente na adição de elementos.


Teppe índio

O elemento vertical é o ponto central das primitivas construções, sendo suporte de toda uma estrutura que constituirá o abrigo. Sobre este suporte aparece a “pele” da habitação, seja ela em couro de animais ou tecida em palha/finos troncos de madeira, por vezes recorrendo a argamassas na sua junção. É habitural a ornamentação, quer por meio de pinturas quer pela própria foama de "tecer" a palha.
Nessa pele, o elemento “protector” do abrigo, ressurge o carácter feminino da construção, contraposto à estrutura imóvel e rígida (elemento masculino).


Cabanas antigas de estrutura de madeira com membrana exterior de palha


Abrigos com revestimento em palha e terra

Na sua análise da habitação primitiva Semper dividia-a em quatro elementos essenciais: “ o lugar do fogo”, o embasamento, a estrutura e a membrana de protecção.
Esta divisão é claramente ligada a uma visão etnográfica da construção.
O abrigo inicial é descrito como a constituição de um micro-mundo e a sua interpretação está notoriamente ligada à visão cosmológica dos seus construtores.


Hoje as ideias que estão na base do desenvolvimento de um edifício não reunem por certo a visão cosmológica do seu arquitecto.
Ainda assim o conceito "Pele" é usado, mantendo o seu carácter de protecção e ornamento.





Guys Hospital - Uma membran metálica forma "tece" a fachada do Edifício.


Uma boa maneira de repensar a arquitectura sob um ponto de vista sustentável partirá certamente pela análise dos modelos antigos de "pele" e pela aplicação de lógicas semelhantes nas actuais arquitecturas.

27/07/2008

Arquitectura da poupança energética

Apesar de muito falado, o conceito de Poupança Energética está recheado de equívocos e alguns mitos.
Vamos então analisá-lo de forma simples de modo a compreendermos melhor o seu significado.
A Poupança Energética é um conceito simples mas que deve ser sempre analisado num contexto global. Isto é, depende de 5 factores:

I - Dimensão, orientação das janelas e seus sistemas de protecção contra a radiação (palas, estores ou portadas exteriores).
II - Composição das paredes, chão e cobertura.
III - Tipo de electrodomésticos na casa.
IV - Tipo de sistema de climatização e de aquecimento de águas que a casa possui.
V - Existência de produção autónoma de energia.

I - Dimensão, orientação das janelas e seus sistemasQuanto ao pimeiro factor, quando temos uma casa com janelas pequenas para sul e grandes para norte, bestial! Nem preciso de proteger nada. Se não for assim, já tenho gastos energéticos acrescidos senão quiser aguentar o frio ou o calor em demasia. No entanto, quando uma casa já está construída, as alterações são caras e morosas. Como é obvio não podemos mudar uma janela de sul para norte em três tempos... Podem-se apenas reduzir gastos (Verão) com a introdução de protecções à radiação como sento toldos, estores ou portadas nas janelas...etc. Quanto à alteração dos caixilhos e vidro, esta só é eficaz se a parede possuir um bom nivel de isolamento. Senão, só se arranjam problemas ao melhorar o comportamento térmico das janelas. Isto é, surgirão condensações e o consequente aparecimento de fungos nas paredes das casas em que os caixilhos foram substituídos por uns melhores e as paredes continuaram sem isolamento térmico...

II - Composição das paredes, chão e cobertura
Quanto ao segundo factor, se eu tenho uma casa com parede dupla (a chamada caixa de ar) ou com parede simples mas com placas de poliestireno por fora ou por dentro, bestial! Não preciso de fazer nada. Se não for assim, já possuimos gastos que não deveriamos possuir para climatizar a casa. Para alterar o desempenho da parede é que já é mais complicado... Primeiro, só vale a pena alterar a composição de uma parede se colocarmos uma caixilharia com o mesmo grau de isolamento. ( A razão é a mesma que descrevemos acima.) Segundo, só vale a pena melhorar as paredes exteriores se estas forem relativamente lisas. Isto porque, só assim é que temos custos de obra reduzidos. Senão, não vale a pena. O mesmo se aplica à cobertura e ao chão do piso mais inferior.

III - Tipo de electrodomésticos na casa
Quanto ao terceiro factor, este é o mais fácil de perceber. Um frigorífico de eficiência "A" gasta menos que um de "B" e assim sucessivamente...Um equipamento que possua "stand by" gasta mais que um que não possua etc... Uma lampada encandescente é menos eficiente que uma fluorescente...etc..

IV - Tipo de sistema de climatização e de aquecimento de águas
Quanto ao quarto factor, trata-se do modo como nós aqueçemos ou arrefeçemos a casa e a água que usamos. Aqui existem sistemas que são ou não adqequados em função da casa e dos seus espaços exteriores.
Existem vários sistemas eficientes de climatização a partir de energias renováveis: solar termodinâmico, geotérmico e aerotérmico.

a) Solar termodinâmicoPor exemplo, quando temos telhados com a inclinação de 30º virados a sul, podemos com dois paineis de 1x2m aquecer a água da minha casa sem gastos e baixar a factura do aquecimento dos espaços interiores. Este sistema trabalha em simbiose com um recuperador de calor ou aquecimento a gás. (Embora um recuperador de calor ou o gás já não sejam energias renováveis).
Este sistema só dá para aquecer.

b) Geotérmico
Mas se uma casa tiver muito poucas horas de sol, o anterior sistema já não serve. Teremos de tentar a energia geotérmica. Trata-se do princípio do radiador do carro. ( Uma rede de tubos passa por uma zona mais quente/fria e transporta essa temperatura para a zona que queremos aquecer/arrefecer. Dentro do geotérmico temos dois sistemas: um furo vertical no chão (caro mas a única opção quando não temos muito terreno) e uma rede no jardim (mais barato mas precisamos de ter um campo de 300m2 livre).

c) Aerotérmico
O princípio é semelhante ao geotérmico, no entanto aquilo que me parece é que apresenta uma factura de energia electrica demasiado elevada. É barato inicialmente. No entanto tem custos mais próximos do ar condiconado. Não está ainda muito testado.

V - Existência de produção autónoma de energiaO último factor trata-se da existência ou não de geradores de energia numa casa. Isto é, qualquer pessoa pode produzir a sua energia. Tem é de fazer um investimento inicial e esperar os anos necessários para rentabilizá-lo.
O gerador de energia não é uma invenção recente. (Qualquer empreiteiro tem um gerador a gazóleo). O que é recente são os geradores "caseiros" eficientes com fontes de energia renováveis.
Existem hoje geradores "caseiros" eficientes para: energia eólica, energia solar (fotovoltaico) e energia hídrica.

a) energia eólica
Exitem vários tamanhos e potências distintas. O investimento que compensa pela certa ronda os 20 000 euros. É já bastante grande. Só vale a pena depois de um estudo do vento no local. Tem a vantagem de produzir energia todo o dia e vender energia à rede. Para quem tem 20 000 euros e um lugar cheio de vento pode ser mesmo um bom negócio.

b) energia solar (fotovoltaico)
Também é caro mas ajústável à potência que a casa consome. Isto é, podemos ter mais ou menos paineis. Só se produz energia durante o dia. Temos é de programar a climatização da mesma forma, ou seja, gastar durante o dia e não gastar à noite.

c) energia hídrica.Porreiro, mas é preciso ter um riacho. Tem uma exelente eficiencia. Idêntico ao eólico.


Conclusão
Basicamente os geradores e os sistemas renováveis só são rentáveis porque as pessoas com IRS dos escalões mais elevados e as empresas no IRC têm a possibilidade de as apresentar como despesas e reduzir assim a sua carga fiscal. Senão, o preço do investimento não compensaria a poupança futura a curto prazo.
Existem várias empresas a fornecer estes produtos, mas nem todas têm os produtos homologados. E se não estiverem homologados, adeus descontos no IRS ou IRC...
Como se pode ver este assunto não é directo. É preciso sempre analisar caso a caso para que não se dupliquem recursos. Por exemplo, se temos geotérmico, não precisamos de solar termodinâmico. Ao mesmo tempo se possuirmos muita energia eléctrica a partir de solar fotovoltaico já só colocamos ar condicionado e temos a climatização resolvida sem gastos...

29/06/2008

A Arquitectura da Cidade Sustentável

O desenho da cidade deve incorporar princípios activos de sustentabilidade para que o seu funcionamento seja amigo do ambiente. Isto é, não devemos falar exclusivamente de arquitectura sustentável mas também de arquitectura de cidade sustentável.
Estes princípios passam por:

- uma distribuição equilibrada dos usos, misturando habitação, serviços e comércio, o que permite reduzir as deslocações da população, reduzindo deste modo o nível de emissões de gases poluentes;
- o correcto índice da densidade de construção, contemplando ao mesmo tempo no desenho das ruas, pensando na ventilação, orientação solar e arborização destas;
- o desenho cuidadoso dos espaços públicos, regulando a área de espaços impermeáveis, e permitindo deste modo a infiltração das águas da chuva no solo;
- o planeamento do funcionamento das infra-estruturas, como sendo o posicionamento estratégico dos pontos lixo para que a sua recolha seja eficiente;


Cortona - Cidade toscana medieval, exemplo claro de mistura de usos ou funções num contexto urbano.
Ferrara - Cidade do Renascimento, planeada pelo primeiro urbanista moderno de nome Rosseti, exemplar ainda hoje pela proporção entre a infraestrutura viária e a densidade de edificação aplicada.

Barcelona - Ciclovia da Avenida Diagonal, exemplo extraordinário de como o espaço público pode ser arborizado e ao mesmo tempo permitir o transporte não poluente.

12/06/2008

Aquecimento / Arrefecimento Solar Passivo

O que é o desempenho solar passivo?
Uma habitação bem orientada nos pontos cardiais beneficia de grande aproveitamento solar.
O sol pode ser um aliado no aquecimento / arrefecimento de espaços, se utilizarmos os meios correctos. Mas, se pelo contrário o dimensionamento e a orientação de vãos exteriores não for bem planeada, os espaços sofreram de sub-aquecimento ou sobre-aquecimento.
Trata-se de tirar o maior proveito da energia solar na regulação da temperatura dos espaços interiores sem recorrer a dispositivos mecânicos.

25/05/2008

Arquitectura de Gelo

Uma forma de construção que não prejudica o ambiente é aquela que recorre unica e exclusivamente a materiais existentes no lugar.

Exemplo extremo e óbvio disso são os Iglos. Estas construções caricatas da paisagem gelada do nórdico fundem-se inteiramente no horizonte, quase sendo difíceis de distinguir.



São abrigos também associados ao nomadismo, sendo fácil e rapidamente construídos e posteriormente abandonados (numa digressão de caça, por exemplo).
Existem também os chamados "Iglos de Pedra", os cortelhos que no abrigavam os pastores quando pernoitavam na serra do Marão.



06/04/2008

Uma Habitação Ecológica

Quando falamos em ecologia necessariamente temos que falar na política dos 3Rs Ou seja Reduzir, Reutilizar e Reciclar.
A casa que vos apresento segue a política do reduzir ao ter como principio a contenção máxima do seu programa base. No fundo, trata-se de uma habitação para duas famílias (com laços de sangue) que optaram por ter o mesmo lar, partilhando todos os espaços comuns normais a uma casa: sala de estar, de jantar, cozinha, lavandaria, garagem e área técnicas.
Desta forma não só REDUZEM o impacto que a construção tem sobre o meio ambiente como também REDUZEM os gastos energéticos próprios à manutenção de uma habitação (electricidade, aquecimento...).
Trata-se portanto de um Programa Base Habitacional Ecológico.


A cobertura é inclinada de tal forma que a água é conduzida para um pequeno tanque, na zona mais baixa, sendo aqui recolhida e armazenada para a rega do jardim.


As fachadas exteriores foram pensadas de acordo com o clima da Covilhã, muito frio de Inverno e muito quente de Verão.

A habitação segue uma tipologia tradicional portuguesa de pátio interior. Esta configuração permite criar três alas distintas no seu interior. O corpo maior será utilizado pela família mais numerosa (casal com um filho), o corpo menor é ocupado pela família menor (um casal) e o corpo central é reservado para os espaços comuns.
O pátio central no verão será coberto com lonas, para que se mantenha um local fresco que apele ao convívio.
Este projecto tem a assinatura UTOPIA - Arquitectura e Engenharia, Lda
(ver http://www.utopia-projectos.com/)

30/03/2008

Arquitectura Uterina

Na raiz, existem duas formas antagónicas de pensar a arquitectura tradicional: adicionando ou subtraindo elementos.

A primeira, tem uma génese masculina, tendo nascido com o primeiro menir erguido sobre a face da terra e desenvolvendo-se até aos modernos arranha-céus dos dias de hoje. Existem muitas detectadas por arqueólogos, historiadores e arquitectos em Portugal.


A segunda tem uma génese feminina, tendo nascido com as primeiras cavernas habitadas. Rapidamente a caverna natural terá dado origem à caverna construída, criando por todo o mundo exemplos fenomenais desta forma uterina de criar arquitectura.


Exemplo de arquitectura troglodita na Capadócia, Turquia.

Exemplo de arquitectura troglodita, próximo de Beijing, na China.


Cidade perdida de Petra, na Jordânia.


Igrejas em Lalibela, na Etiópia.

Esta forma de pensar a arquitectura é obviamente ecológica.
Mais que aproveitar os materiais da terra, ela é a própria terra.