05/08/2019

Climatização Ecológica

Nos últimos anos tem havido um crescente exagero na utilização dos sistemas mecanizados de renovação de ar e climatização. Por um lado foi introduzida legislação que obriga as casas e equipamentos a renovar o ar de modo mecânico contrariando os princípios mais elementares de redução da nossa pegada ecológica. Por outro lado tem havido uma crescente pressão para a utilização de sistemas de arrefecimento através de equipamentos seja por imperativos legais, seja pelo desconhecimento de sistemas alternativos.

Climatização ecológica com arrefecimento passivo
Ora, é precisamente do desconhecimento que pretendo falar. Na realidade, os arquitectos, os engenherios e os legisladores desconhecem as possibilidades alternativas no que diz respeito à climatização passiva. 
Ora é perfeitamente possivel criarmos zonas de fachada com zonas de sobreamento e consequentemente protegidas da radiação solar. Essas zonas sombreadas vão possuir temperaturas inferiores. Se estas estiverem em contacto com o interior e o interior possuir pequenas aberturas na fachada oposta, desencadeia-se uma corrente de ar que permite o arrefecimento. O ar destas zonas mais frias é assim introduzido dentro o edifício. Esta técnica é conhecida desde os anos 30 e foi executada em inúmeros edifícios por arquitectos portugueses em Africa, local onde os recursos financeiros eram reduzidos mas onde o conforto era uma prioridade.

O exemplo da arquitectura portuguesa dos anos 60
O arquitecto Francisco Castro Rodrigues é um exemplo extraordinário da implementação de uma climatização ecológica. Analisemos o caso do Liceu do Lobito. Aqui a fachada sombreada cria zonas de baixa temperatura e diferente pressão que permitem arrefecer a escola. A ventilação transversal faz o resto do trabalho de renovação de ar. Nenhum sistema ou equipamento mecanico é utilizado. Apenas o engenho de com poucos recursos, climatizar o edifício. è preciso seguir os exemplo do tempo em que a ecologia não era um luxo mas uma necessidade financeira e técnica. Estas lições não se podem perder. 

 Liceu no Lobito - Fachada com palas horizontais
Arquitecto Francisco Castro Guedes - Liceu no Lobito

 Liceu no Lobito - Fachada sombreada
Climatização ecológica - Liceu no Lobito
Ventilação transversal ecológica do Liceu do Lobito

27/03/2019

Coliving e Coworking


O que é o coliving e o coworking


Para entendermos bem o que é o coliving e o coworking temos de ir por partes pois o seu impacto na arquitectura sustentável é extremamente elevado. Julgo que é chegada a altura de falar um pouco sobre algo que promete transformar as nossas cidades e sociedades nas próximas décadas.
O coliving e o coworking é uma forma nova de nos relacionarmos entre todos e um novo modo de organizarmos os espaços. Nasce com a economia partilhada e o seu impacto económico, social, político e ambiental será enorme.

A economia partilhada enquanto berço do coliving e coworking


As recentes alterações sociais abriram caminho a novos conceitos de habitar as cidades e os espaços. O contexto onde tudo começa é de facto a economia partilhada. Para aqueles que não sabem a economia partilhada surge mais intensamente com o aparecimento da internet e a sua generalização. Com a rede global começaram a surgir as primeiras plataformas de partilha, inicialmente de cariz alegadamente social e mais tarde transformam-se em grandes fontes de lucros. Recordo o conceito de couchsurfing onde a airbnb nasce. Na realidade, as pessoas habituaram-se a partilhar, a vender usado, a reutilizar os seus produtos colocando-os novamente no mercado.
Com estes processos a decorrer a sociedade passou a achar normal receber um estranho em casa, fazer disso fonte de rendimento e inclusivamente viajar e ficar em casa de alguém desconhecido simplesmente para baixar o custo da viagem ou conhecer experiências autênticas. No fundo a partir de agora toda a sociedade passa a conviver bem com a ideia de estar num espaço privado em conjunto com outras pessoas que não fazem parte do nosso circulo de conhecidos.

Coliving
O coliving é o acto de viver partilhando um espaço. Surgiram assim recentemente novos espaços, por vezes adaptados de edifícios existentes que oferecem estadia aos seus clientes ou utilizadores partilhando as zonas comuns. No fundo o cliente ou utilizador partilha as salas e cozinhas e o seu espaço privado resume-se ao quarto. Este conceito deixou de ser um explusivo do turismo e passou a ser usado para vida do dia-a-dia.

Coworking
O coworking é uma forma imediata de aplicar o conceito de espaço partilhado aos serviços. No fundo as gerações mais novas, e os mais empreendedores em particular começaram a preferir alugar espaços em conjunto para trabalhar. Ora, aquilo que nascia como um recurso para poupar custos de renda rapidamente se tornou num produto procurado. Vários trabalhadores independentes e empreendedores preferiam trabalhar em escritórios onde podem trocar ideias e partilhar soluções. O coworking passa assim a ser um produto procurado. O utilizador paga uma infraestrutura e acede à partilha do espaço com outros utilizadores.

Cohousing
O cohousing é a institucionalização do coliving. Surgem edifícios exclusivamente destinados à habitação já com o propósito de partilha dos espaços comuns. Surgem assim adaptações para residências de estudantes ( destinadas ao segmento universitário), residências seniors ( destinadas aos mais idosos) , residências assistidas ( destinadas aos mais velhos com necessidade de cuidados especiais), entre outros.

Consequências do coliving e coworking


É chegada a altura de verificar então que consequências podemos esperar a nível social, urbanístico, político e ambiental.
Sociedade
O coliving é no fundo a demonstração que a sociedade de hoje é bastante mais complexa. A família deixou de ser o único modo de organização do espaço da habitação. Se a revolução industrial alterou a relação do trabalho e a família, a economia partilhada alterou assim a relação entre família e habitação.

Urbanismo
As nossas cidades eram constituídas por unidades familiares: a casa, o apartamento, o prédio de apartamentos, os bairros de casas. Sobre esse tecido erguiam-se edifícios colectivos e singulares: o palácio, o hospital, o museu, a igreja, o tribunal. com o coliving a habitação evoluirá para edifícios cada vez mais complexos que englobam a partilha dos espaços. A cidade torna-se mais complexa e multifacetada. Com o coworking os espaços de trabalho vão tornar-se colectivos no uso.

Política
Algumas tensões poderão surgir. Se por um lado os promotores do coliving e do coworking foram entidades privadas, rapidamente os estados começaram a intervir e a promover os seus próprios espaços de coliving e coworking. Isso significa que um novo campo de batalha política surgirá entre senhorios e arrendatários e com os estados à mistura. Será uma batalha em tudo idêntica ao que se passa hoje no mercado de arrendamento entre fundos, private equities, empresas particulares e estados... Simplesmente a batalha desloca-se da casa para o cohousing.

Ambiente
Para o ambiente o coliving e o coworking é uma oportunidade enorme para construir uma arquitectura mais sustentável. Partilhar espaços significa que podemos ter custos muito mais reduzidos na construção, manutenção e utilização dos locais. E custos energéticos reduzidos são também bons para o ambiente. Se a economia partilhada de objectos permitiu prolongar a vida dos objectos mantendo-os no mercado de consumo sem serem produzidos novos ou enviados para o lixo, gerando assim consideráveis melhorias ambientais, podemos dizer que o coliving e o coworking possibilitarão enormes poupanças ambientais na exacta medida em que pouparemos também recursos do nosso planeta.

A oportunidade para a arquitectura sustentável


É importante que os arquitectos tomem consciência destes processos e no fundo aproveitem para desenvolver projectos que possam:
- gerar retorno aos investidores, sejam eles públicos ou privados
- criar espaços de qualidade promotores de conforto para todos
- poupar recursos ambientais através das novas economias de escala dos espaços




Projecto Urbanístico com Coliving, Coworking e Cohousing





10/08/2018

Plantas para purificar o ar interior de casa

A qualidade do ar que respiramos é algo de extrema importância para mantermos um estilo de vida saudável. Se é certo que a arquitectura tem um papel fundamental na escolha dos materiais e no modo de efectuar a renovação de ar, é também fundamental entender que está ao nosso dispor a possibilidade de purificar o ar através da utilização de plantas.

O que é a má qualidade do ar?
A má qualidade do ar resulta essencialmente de partículas em suspensão que se acumulam na nossa casa e que são no fundo prejudiciais ao nosso sistema respiratório em particular. Alguns microorganismos nocivos à nossa saúde podem também sobreviver em ambientes com baixa iluminação e elevada humidade.

De onde vem a má qualidade do ar interior?
A má qualidade do ar interior provém maioritariamente de agentes externos como os escapes dos automóveis, chaminés externas, poeiras de construção, etc... Contudo os materiais que revestem o interior da habitação podem eles também possuir propriedades que os levam a libertar partículas nocivas para a nossa saúde.
Os arquitetos devem ter noção que algumas fontes são particularmente nocivas:
- fibras de amianto ( produto cancerígeno)
- vapor de formaldeído
- compostos orgânicos voláteis
- fumo de tabaco ou cinzas
- gás radão ( libertado pelo granito )
- polímeros degradados ( plásticos ressequidos)
- pinturas não biodegradáveis
-deficiente manutenção dos aparelhos de climatização como o ar condicionado ou condutas de ventilação
Convém salientar que o uso intensivo da abrasão sobre vários materiais pode também causar maior proliferação de poeiras e partículas.

Como purificar o ar interior?
O ar interior pode ser purificado de diversas formas:
- Sempre que a qualidade do ar exterior o permitir a ventilação natural deve ser a opção por ser a solução mais sustentável.
- Eliminar a fonte poluente interior, removendo o material ou o equipamento.
- Revestir o material que emite as partículas. Tapar as fendas do granito, reduzindo a superfície em contacto directo com o ar reduz a exposição a este agente.
- Por fim, utilizar as plantas enquanto agente purificador.

Que plantas podemos utilizar para purificar o ar?
De acordo com uma publicação da NASA, Interior Landscape Plans for Indoor Air Pollution Abatement , publicação de 1989, são várias as espécies que podemos utilizar de acordo com a estratégia que pretendemos. Vejamos em seguida quais as mais indicadas para cada grupo de poluentes.


Plantas para eliminar o xileno e o formaldeído

Para eliminar o forlamdeído ou metanal ( presente em alguns papeis e que causa irritação nas fossas nasais) ou o xileno ( presente nos derivados do petróleo como a borracha e que pode causar tonturas e problemas cardio respirtatórios) estas são as plantas mais aconselhadas:


-  Nephrolepis exaltata, conhecida como Samambaia americana, herbácea rizomatosa com folíolos longos e rectilineos
Nephrolepis exaltata

- Nephrolepis obliterata, outra herbáce rizomatosa com folíolos mais verticais 

Nephrolepis obliterata


- Phoenix roebelenii  também conhecida como Tamareira-anã , palmeira anã, tamareira de jardim ou Palmeira-fénix.


Phoenix roebelenii 


- Chlorophytum comosum conhecido como Clorofito

Chlorophytum


- Chamaedorea seifrizii, também chamada de Palmeira bambu ou Palma bambu

Chamaedorea seifrizii

- Ficus benjamina que é também reconhecida como Figueira Benjamim 


Ficus benjamina


- Spathiphyllum mauna loa também chamado de Lírio da paz ( mais indicado para o xileno)


Spathiphyllum


- Chrysanthemum morifolium também conhecido como Crisântemo  ( também mais adequado para remover o xileno)



Chrysanthemum morifolium


Plantas para eliminar o benzeno

Para eliminar o benzeno que é encontrado nos plásticos, no fumo do tabaco, nos detergentes, nas colas, nas tintas e nas ceras temos disponível outra família de plantas:


- Aglaonema modestum chamada de aglaonema



Aglaonema modestum



- Epipremnum aureum ou melhor conhecida como Jiboia ou hera-do-diabo



Epipremnum aureum

Mais eficaz para remover o amoníaco temos um novo conjunto de plantas. O amoníaco é tóxico e está presente em limpa vidros, adubos, ceras e alguns sais perfumados.




- Anthurium andraeanum reconhecido como Antúrio

Anthurium andraeanum


- Rhapis excelsa chamada de Palmeira-ráfis ou Palmeira-dama 


Rhapis excelsa


Plantas para eliminar o tricloroetileno

Para eliminar o tricloroetileno, estas são as plantas mais indicadas. A exposição excessiva ao tricloroetileno pode causar tonturas náuseas e vómitos. O tricloroetileno está presente em solventes e decapantes, aparecendo em produtos químicos como detergentes.


- Liriope spicata conhecida como Liriope

Liriope spicata

- Gerbera jamesonii chamada de Gerbera ou Margarida do Transval

Gerbera jamesonii

- Dracaena fragrans conhecida como massangeana

Dracaena fragrans


- Dracaena marginata chamada de Dragoeiro de Madagáscar

Dracaena marginata


- Sansevieria trifasciata laurentii chamada de Espada-de-são-jorge, Espada-de-santa-bárbara 



Sansevieria trifasciata laurentii


- Hedera hélix chamada Hera com flor

Hedera hélix

A importância das plantas de jardim interior na arquitectura

Torna-se assim evidente o papel que as plantas podem ter na purificação do ar. Cabe-nos a todos pensar em estruturas que permitam incorporar estes jardins interiores de modo a tirar partido destes processos fisiológicos que nos são benéficos. Os jardins interiores de inverno ou os jardins verticais são assim espaços fundamentais a incorporar pelos arquitectos nos projectos de arquitectura.

07/01/2018

Como construir uma casa ecológica

Como construir uma casa ecológica

Para desenhar uma casa amiga do ambiente é fundamental construir um corpo de saber que se traduza facilmente num conjunto de prioridades a observar na hora de projetar. Assim, julgo fundamental incluir uma breve lista dos temas mais importantes que uma casa bioclimática deve possuir. Na sua generalidade são os temas com os quais nos debatemos ao elaborar um projeto.

Casa ecológica em Paredes - Utopia Arquitectos



Mais recentemente, a casa amiga do ambiente de Paredes foi um dos nossos casos de estudo. Enumero em baixo o processo de trabalho que nos guiou de modo a obtermos uma construção onde a ecologia e a arquitetura se procuram fundir.

Preocupações a ter ao desenhar a Estrutura
A estrutura é fundamental numa casa amiga do ambiente. Para além do seu custo ser 40% do valor global da obra, a sua pegada ecológica é superior a 45% dados os gastos energéticos envolvidos. Como tal, vários são os cuidados a ter:
• Reutilização de materiais encontrados ou oriundos de demolições
• Seleção de sistemas estruturais sustentáveis
• Análise do ciclo de vida de componentes e materiais
• Longa vida,  concepção flexível a várias distribuições da arquitetura (boa capacidade de carga, altura generosa do pé-direito)
• Relação entre massa e desempenho térmico

A arquitectura e a forma exterior da construção. 
O projecto de arquitectura é a base de tudo o que se segue. A concepção da forma é assim determinante e vários são os temas a tratar na casa:
• Avaliação do relacionamento entre área aberta e iluminação e desempenho térmico
• Detalhes do Projecto de execução para um ótimo desempenho da construção
• Materiais e acabamentos sustentáveis ​​e seu impacto na qualidade do ar interior
• Verificar bem o desempenho da forma da construção - evitar pontes térmicas e permeabilidade descontrolada do ar

Pensar a Iluminação
A maximização do uso da luz diurna disponível é o principal objectivo. Para o alcançar uma casa amiga do ambiente deve procurar efetuar durante o projecto:
• Estudos de luz diurna, incluindo análise de fatores de luz diurna, simulações de iluminação diurna
• Seleção e localização de componentes de iluminação: uso de iluminação segundo tarefas e locais, escolha de acessórios de alta eficiência
• Gestão de iluminação: controlo da relação luz natural e artificial

Energia elétrica
O principal objectivo ao nível electrico é a diminuição do consumo de eletricidade:
• Isolamento dos circuitos elétricos durante a noite, dimensionamento de cabo otimizado
• Especificação de elevadores de baixa energia quando necessários
• Consideração de sistemas combinados de calor e energia para maximizar a eficiência energética total
• Avaliação do consumo de energia elétrica

Aquecimento
A principal preocupação é a maximização de técnicas de aquecimento passivo:
• Planeamento da construção e desenho de fachada para maximizar o ganho solar útil
• Avaliação dos ganhos solares passivos e avaliação do potencial de superaquecimento
• Cálculos comparativos de valor de U para garantir o desempenho térmico otimizado
• Modelação do fluxo de calor através da construção em diferentes situações de temperatura e em diferentes épocas do ano
• Máxima eficiência das medidas de aquecimento ativo:
- Seleção do método de aquecimento e combustível
- Seleção dos emissores de calor de alta eficiência, otimização do tamanho da planta
- Otimização de controlos, incluindo Building Energy Management Systems (BEMS)
- Entrada nos cálculos do custo do ciclo de vida

Arrefecimento
O calculo da refrigeração necessária é fundamental. Segue-se assim a maximização das técnicas de resfriamento passivo:
• Massa térmica e ventilação para promover o resfriamento passivo
• Modelação das mudanças de temperatura de modo a prever as temperaturas internas e a sua relação com a temperatura ambiente
• Desenho e conceção do sistema de sombreamento da fachada  ou outros dispositivos
• Design de sistemas ativos para minimizar o consumo de energia

Consumo de água
Aqui o objetivo obvio é a minimização do consumo de água na casa:
• Seleção de componentes para conservação de água e reutilização de águas
• Conceção de sistemas de tratamento de resíduos autônomos
• Desenho da paisagem de modo a minimizar o escoamento superficial da água

Ventilação
A renovação de ar é fundamental em qualquer casa bioclimática:
• Sistemas de ventilação passiva e ativa eficientes em termos de energia
• Modelar os edifícios para avaliar e otimizar a ventilação

Estimativa de custo
A questão do custo aborda dois temas, um primeiro ligado ao dono de obra e um segundo ligado à sociedade como um todo. Mas os dois temas estão profundamente ligados em qualquer casa ecológica:
• Estudos comparativos do custo do ciclo de vida, para componentes individuais e sistemas alternativos, para melhor avaliar a pertinência do custo inicial, do
custo em uso e até do custo de demolição e reutilização, incluindo reciclagem futura
• Contabilidade de custos ambientais

Paisagismo
• Avaliação de questões ecológicas e dos ecossistemas intervencionados
• Paisagismo suave para o acesso solar de inverno do ciclo de vida (altura da vegetação, sombreamento, reflexão da luz, penetração da luz solar)
e abrigo (direções de vento predominantes e intensidade, modelagem de bermas de terra)
• Técnicas de resfriamento passivo para áreas urbanas
• Vegetação indígena: conservação e propagação
• Plantas de tratamento de resíduos e camas de junco

Esta é no fundo a nossa lista de prioridades a observar na hora de elaborar o projeto de arquitetura e a sua relação com os projetos de especialidade





01/05/2017

Turismo Sustentável

A ONU aprovou no final de 2015 uma resolução que declara 2017 como o ano do turismo sustentável. O tema parece não ter causado muito debate e aparentemente passou quase despercebido. Foram todavia feitos esforços para o divulgar e exemplos desta campanha estão neste endereço

Por cá realizam-se três eventos:
- concurso de fotografia com sede em Lamego
- debates e conferências pela UTAD
- uma conferencia internacional em Lagos sobre sustentabilidade

Julgo que todos são meritórios e só pecam por escassos. Contudo era importante que o tema da sustentabilidade ambiental no turismo fosse alargado aquilo que se está a passar nas áreas urbanas. Poucos debatem a sustentabilidade ambiental relativa aos aspectos seguintes:

- Mobilidade nas cidades 
São evidentes as consequências dos motores de combustão dos autocarros turísticos, shuttles e transportes privados sobre os centros das cidades e a qualidade do ar. O transporte de chegada dos turistas tão pouco é tema de reflexão.

- Afastamento das populações autóctones
Os centros urbanos e rurais têm uma dimensão finita. Como tal a quantidade de turistas não pode crescer indefinidamente sob pena de destruição da própria identidade cultural e social das populações e o seu afastamento para zonas onde o custo de vida é mais baixo.

- Destruição de Património Edificado
O património edificado pode e deve ser adaptado a actividade turística, contudo os usos devem ser convertidos em actividades compatíveis e de elevado valor para sustentabilidade das próprias cidades e edificações.

- Os espaços florestais e agrícolas
A floresta e a agricultura são ainda vistos no melhor dos casos como as paisagens da atividade turística e poucos são os casos em que são a essencia da experiencia turística. Quem conhece o Douro sabe a insustentabilidade da demografia e cultura que pendem sobre o território e o risco de perda latente que paira neste momento sobre a região.

Como então desenvolver um turismo sustentável?
Julgo que partilhar experiências é algo que temos a obrigação de fazer.
Na minha experiência enquanto arquitecta verifico:
- Os investimentos sustentáveis ambientalmente são sempre mais rentáveis. Apostam num nicho de elevado valor e em que o preço não é o primeiro critério de escolha
- A aposta numa mobilidade verde garante uma experiência turística de maior qualidade e uma relação com o contexto social mais profícua.
- A criação de uma rede local de fornecedores aos hoteis e serviços turísticos garante uma identicade cultural e por essa via uma diferenciação do produto turístico. É uma estratégia que colmata os perigos do afastamento das populações locais.
- A aposta na valorização do património através de estratégias de reabilitação que dotem de conforto e qualidade as edificações existentes e as adaptem a realidade contemporânea.

O Porto e o Douro são oportunidades de turismo sustentável

* Mais informação sobre turismo aqui

03/04/2016

O jardim Interior


A natureza no espaço construído
A História da arquitetura moderna do século XX foi profundamente marcada por uma busca contínua de uma relação com a natureza mais clara. A arquitectura tentou abrir-se ao sol e à natureza, criando janelas horizontais, estruturas porticadas leves no rés do chão, etc... O betão armado foi fundamental para permitir este objectivo.
Contudo, pouco se fala do facto de se ter procurado também integrar o jardim dentro da casa. Ora esse processo teria sido impossível sem as plantas de sombra e sem uma em particular: o filodendro.

O filodendro
Esta planta é absolutamente extraordinária, mesmo dentro da familia das espécies indicadas para zonas sombreadas. É de uma resistência inigualável em zonas pouco iluminadas e se o sol for muito incidente as suas folhas chegam mesmo a ficar amarelas. Imensas espécies pertencem a esta família, umas trepam, outras não, umas têm a folha reticulada, outras uniforme, algumas sobem a três metros, outras são praticamente rasteiras para vasos, mas todas partilham estas características resilientes.

O jardim interior dentro de casa
No século XIX foi muito comum o aparecimento de estufas, invernadeiros ou também chamados de jardins de inverno. Mas estas estruturas obrigam a um controlo de temperatura e humidade e não permitiam um conforto suficiente para serem habitadas em permanência.
Ora, o filodendro serviu precisamente este propósito pois trata-se de uma planta que sem muitos cuidados adapta-se perfeitamente ao ambiente de uma sala ou corredor, quer ao nível de humidade, da temperatura e da radiação solar. Finalmente podíamos ter um jardim dentro de casa!

O papel do filodendro na arquitectura moderna
E muitos arquitectos das vanguardas modernistas aproveitaram estas características do filodendro, desde Corbusier, Aalto, Neutra entre outros. A casa não só se abria ao exterior, mas também deixava-se invadir pela natureza no seu interior. O filodendro trazido inicialmente para as estufas, depois pelos pintores como Matisse, ou Gauguin, entrava agora nas casas burguesas pela mão dos arquitectos.


A importancia do filodendro na história da arte
Recentemente o Wolfsonian em Miami apresentou uma exposição denominada
Philodendron com curadoria de Christian Larsen. O seu subtítulo Do Exótico Pan-Latino ao Americano Moderno, mostra a vontade de ilustrar a importância de pintores, arquitectos e designers na divulgação das propriedades desta floresta dentro de casa.

Filodendro

Ray & Charles Eames - Interior de Pacific Pallisades

Richard Neutra - Casa Josef Von Sterberg

Le Corbusier - Unidade de Habitação em Marselha

Henri Matisse - Interior com folhas - 1935

Roberto Burle Marx - Natureza morta com philodendron I - 1943



06/02/2016

A casa ecológica de adobe

Uma perspetiva ecológica sobre a construção
Uma casa ecológica pressupõe o usos de técnicas construtivas com baixo consumo energético. Ora a resposta a esta questão encontra-se à mão de semear na arquitetura popular portuguesa. Nesta, a escassez de recursos disponíveis e a contingência geraram processos pragmáticos e altamente eficientes. Assim, a casa da arquitetura popular é sem dúvida a casa ecológica por natureza.
Neste sentido, existem muitos processos construtivos que se poderiam abordar como a taipa, o tabique e muitas das alvenarias tradicionais. Mas hoje julgo ser importante começar a falar um pouco da construção em adobe.

O que é o adobe?
O adobe  é um conjunto de pequenos blocos com forma regular.  O seu material é constituída por uma argamassa de barro e areia. Estes blocos são posteriormente cortados com a forma final de um tijolo e deixados a secar ao sol. Pode ser usado um molde de madeira para obter uma forma mais regular.
É tradicionalmente uma construção pobre, mas existem exemplos eruditos e monumentais.
No fundo, imagine-se a quantidade de energia que é necessária para produzir e transportar os tijolos atuais!
Ora no adobe, a energia utilizada é a solar.
Para as propriedades estruturais do adobe ser maximizadas necessitamos de uma armadura, Ora a introdução de vigas de madeira nas suas paredes permitem que estas adquiram comportamentos superiores. O usos da abóboda e do arco são também opções neste processo construtivo tradicional.

Exemplos do uso do adobe na Arquitetura Portuguesa
Existem edifícios eruditos totalmente construídos com adobe. Este é o caso do edifício Paços do Duque de Bragança em Vila Viçosa. Outros são monumentais como o caso do convento de Santo António em Loulé, mas a generalidade é a construção de casas de arquitetura popular no Alentejo.


Casa de Adobe no Alentejo

Convento de Santo António em Loulé

Paços do Duque de Bragança em Vila Viçosa